O início de 2026 foi um marco para os varejistas entenderem as tendências, novidades e desafios do setor. Isso porque aconteceram dois dos principais eventos voltados ao setor: em janeiro, a NRF 2026 (em Nova Iorque); em fevereiro, a EuroShop (na Alemanha). Acompanhá-los de perto e ter acesso às boas práticas disponíveis, também nos mostra que o varejo brasileiro está alinhado com o restante do planeta em uso de tecnologia. E, em alguns casos, até mais avançado.
Um problema que observei ser relevante – lá fora e aqui – é a falta de mão de obra. Há muitas oportunidades em aberto, mas não há pessoas disponíveis para ocupá-las. Neste ponto, o uso de tecnologia e bons processos são mandatórios para a continuidade de uma operação.
Porém existe uma diferença cultural importante na gestão das gôndolas entre o varejo europeu e o brasileiro. Na Europa, a organização é metódica: cada produto tem seu lugar fixo, um ‘endereço’ definido na loja. Se um item acaba, o espaço fica vazio, sinalizando de forma clara a necessidade de reposição e mantendo a lógica do estoque. Já por aqui a prateleira vazia é vista como inaceitável, sendo comum mover outros produtos para ‘tapar o buraco’. Embora a intenção seja manter uma aparência de gôndola cheia, essa atitude desorganiza o endereçamento da loja. O resultado é uma operação menos eficiente, pois dificulta a reposição das gôndolas e o controle de inventário. A questão não é aceitar a falta de produtos, mas sim entender que mascarar o problema compromete os ganhos de produtividade que uma loja bem-organizada pode trazer.
O fato é que o grande tema – tanto da NRF, quanto da Euroshop – foi o uso pragmático da inteligência artificial. Se poucos anos atrás falávamos de IA como um conceito, agora a vemos materializada em ferramentas que resolvem dores crônicas do nosso setor. Um dos exemplos mais impactantes é a evolução do reconhecimento de imagem. Câmeras posicionadas nas gôndolas ou mesmo robôs autônomos que circulam pela loja realizam a auditoria de prateleiras em tempo real, identificando rupturas de estoque no exato momento em que acontecem. Isso combate diretamente dois dos maiores vilões da rentabilidade: a quebra operacional e a perda de vendas por falta de produto. Além disso, essa mesma tecnologia acelera o self-checkout, identificando frutas, legumes e verduras sem código de barras, tornando a experiência do cliente ainda mais fluida e sem atritos.
Como exemplos europeus, temos a rede alemã Penny, que funciona sob o modelo de hard discount, ou seja, oferece os preços mais baixos do mercado através de extrema eficiência operacional, sortimento limitado e operação enxuta, com poucos funcionários, e o que permite a operação se manter ativa é a integração com a indústria, com paletes e caixas preparadas para serem colocadas diretamente na área de vendas. Outro destaque de loja que achei muito bacana foi o Recheio, loja portuguesa, que opera no modelo Cash & Carry. Eles possuem uma solução em que o cliente utiliza um coletor para registrar seus produtos enquanto faz a compra, no final coloca o carrinho todo em uma balança e paga num totem. É um modelo de autoatendimento para grandes volumes de compras que funciona muito bem.
Esses eventos e as oportunidades de visitar operações de varejo supermercadistas pelo mundo nos mostraram que o futuro do supermercado é integrado, inteligente e, acima de tudo, focado em liberar as equipes de tarefas repetitivas para que possam se dedicar ao que realmente importa: a experiência do cliente. As etiquetas eletrônicas evoluíram para canais de informação, os robôs se tornaram plataformas multifuncionais de auditoria e retail media, e a IA se tornou a grande orquestradora da eficiência. Para o setor supermercadista brasileiro, a mensagem é clara: investir na integração dessas tecnologias não é mais uma opção, mas o caminho inevitável para o crescimento e a relevância em um mercado em constante transformação.
*Por João Giaccomassi, diretor de produtos para Varejo Supermercados da TOTVS.


