A corrida global pela inteligência artificial deixou de ser apenas uma disputa tecnológica para se tornar também um fenômeno logístico. A expansão acelerada de data centers, a crescente demanda por servidores de alta performance e o avanço da indústria de semicondutores estão impulsionando o comércio internacional de equipamentos tecnológicos, aumentando a movimentação de cargas de alto valor agregado em rotas estratégicas para países como o Brasil.
Segundo a consultoria Gartner, os investimentos globais em inteligência artificial devem alcançar US$ 2,59 trilhões em 2026, alta de 47% em relação ao ano anterior, com mais de 45% desse montante direcionado à infraestrutura necessária para suportar aplicações de IA; incluindo servidores, chips, redes e data centers.
Para Alexandre Pimenta, CEO da integradora logística Asia Shipping, o movimento já produz reflexos no comércio exterior brasileiro. A companhia acompanha o crescimento das operações relacionadas à importação de equipamentos para infraestrutura digital, componentes eletrônicos, máquinas industriais de alta tecnologia e outros produtos essenciais para a transformação digital das empresas.
Pimenta explica que à medida que a inteligência artificial avança sobre diferentes setores da economia, a logística internacional passa a desempenhar papel cada vez mais estratégico para garantir o abastecimento das cadeias produtivas.
“A inteligência artificial costuma ser associada a softwares e processamento de dados, mas existe uma infraestrutura física gigantesca por trás dessa transformação. Cada novo modelo de IA, cada expansão de capacidade computacional e cada data center exigem servidores, chips, sistemas de refrigeração, equipamentos de rede e componentes produzidos em diferentes partes do mundo. Isso amplia a relevância da logística internacional como elemento de conexão entre polos industriais, centros tecnológicos e mercados consumidores”, aponta o executivo.
Brasil se consolida como hub latino-americano de infraestrutura digital
O avanço da inteligência artificial coincide com um momento de forte expansão da infraestrutura digital. Segundo o relatório Latin America Data Center Report 2025, da JLL, o Brasil concentra cerca de 48% da capacidade de data centers em operação na América Latina e responde por 71% da capacidade atualmente em construção na região. O cenário reforça o papel do país como principal polo latino-americano para investimentos em computação em nuvem, armazenamento de dados e aplicações de inteligência artificial.
A necessidade de ampliar essa infraestrutura aumenta diretamente a demanda por equipamentos importados, como servidores, sistemas de armazenamento, componentes eletrônicos, dispositivos de conectividade e semicondutores. Grande parte desses produtos é fabricada em mercados asiáticos, especialmente China, Taiwan, Coreia do Sul e Singapura, fortalecendo o fluxo de cargas tecnológicas para o Brasil.
“O que estamos observando é uma mudança estrutural no perfil das importações. Cada vez mais empresas precisam importar tecnologias críticas para sustentar seus projetos de transformação digital. São cargas que exigem planejamento logístico sofisticado, monitoramento constante, gestão de riscos e conhecimento regulatório, porque qualquer atraso pode comprometer cronogramas de investimento e operações inteiras”, afirma Pimenta.
Semicondutores se tornam ativos estratégicos da nova economia
No centro dessa transformação estão os semicondutores, componentes essenciais para servidores, chips de IA, sistemas de telecomunicações e equipamentos de processamento avançado. Segundo a Semiconductor Industry Association (SIA), as vendas globais do setor alcançaram US$ 791,7 bilhões em 2025, crescimento de 25,6% em relação ao ano anterior. A entidade projeta que o mercado global de semicondutores continue em trajetória de expansão, impulsionado principalmente pela crescente demanda por infraestrutura de inteligência artificial.
Além do crescimento da demanda, a concentração geográfica da produção de chips e componentes eletrônicos reforça a importância da logística internacional para garantir segurança de abastecimento e previsibilidade operacional.
A logística como elo da economia baseada em inteligência artificial
À medida que a inteligência artificial se consolida como uma das principais forças de transformação econômica da década, a infraestrutura física necessária para sustentar essa revolução continuará impulsionando o comércio internacional.
Para Alexandre Pimenta, o avanço da IA evidencia uma característica frequentemente negligenciada nos debates sobre transformação digital: a dependência de cadeias globais altamente integradas para viabilizar a inovação.
“Toda revolução tecnológica depende de uma cadeia física forte. O sucesso da economia baseada em IA também será determinado pela capacidade de conectar fábricas, portos, centros de distribuição e mercados consumidores de forma eficiente. A logística deixa de ser apenas uma atividade operacional para se tornar um dos pilares da transformação digital global”, conclui o CEO da Asia Shipping.



