A preparação para a Black Friday deixou de ser uma campanha concentrada nas semanas que antecedem novembro e passou a integrar o planejamento estratégico de muitas empresas meses antes da principal data do varejo.
Pressão sobre as margens, aumento da concorrência na mídia digital e consumidores mais criteriosos têm levado varejistas a antecipar investimentos em CRM, inteligência artificial e relacionamento com clientes para reduzir o custo de aquisição, aumentar a conversão e construir uma operação comercial mais previsível.
Para Hugo Silveira, empreendedor, estrategista de crescimento e cofundador do Grupo HRZ, holding especializada em crescimento empresarial, aceleração comercial e aumento de receita, a maior mudança está na forma como as empresas passaram a enxergar o calendário comercial. “Quem começa a pensar na Black Friday em outubro normalmente disputa os mesmos clientes, paga mais caro pela mídia e depende de descontos mais agressivos. A venda acontece em novembro, mas a preparação começa meses antes”, destaca.
Nos últimos anos, a estratégia deixou de ser apenas aumentar o orçamento de anúncios. Cada vez mais empresas direcionam esforços para fortalecer sua base de clientes, criar grupos exclusivos, desenvolver campanhas de relacionamento e automatizar a comunicação para chegar ao período promocional com uma audiência própria já engajada.
João Vinas, engenheiro, especialista em CRM e automação comercial e sócio do Grupo HRZ, afirma que esse trabalho também exige conhecer melhor quem já está dentro da base. “Antes de pensar em trazer milhares de novos consumidores para a Black Friday, a empresa precisa entender quem já comprou, há quanto tempo comprou, com que frequência e quanto costuma gastar. Quando esses dados estão organizados no CRM, é possível identificar quais clientes têm maior potencial de recompra e construir uma comunicação específica para cada grupo”, explica.
Na avaliação de Iury Borges, especialista em estratégias comerciais e diretor de operações do Grupo HRZ, essa antecipação reduz a dependência da mídia paga justamente no momento em que o custo por anúncio tende a subir. “Quando a empresa constrói relacionamento ao longo do segundo semestre, ela chega à Black Friday com uma base aquecida e muito mais preparada para comprar. Isso melhora a conversão, reduz desperdícios e torna o investimento mais eficiente”.
Outro movimento observado no varejo é a utilização da inteligência artificial para automatizar parte do relacionamento comercial. Ferramentas de segmentação, agentes de atendimento, automação de mensagens e análise de comportamento permitem que as equipes concentrem esforços em negociações mais estratégicas, enquanto a tecnologia mantém contato contínuo com milhares de consumidores simultaneamente.
Para Vinas, a principal oportunidade está em combinar automação com os dados acumulados ao longo dos meses anteriores à Black Friday. “A IA pode ajudar a qualificar leads, organizar follow ups, recuperar oportunidades e manter o relacionamento ativo, mas ela precisa saber quem é aquele consumidor e em qual etapa da jornada ele está. Agosto é uma oportunidade para começar a organizar esses dados e testar as automações. Novembro não deveria ser o mês de descobrir se o processo funciona”, afirma.
Para Hugo, entretanto, a IA não substitui uma operação comercial estruturada. “A tecnologia potencializa processos que já funcionam. Se a empresa não possui organização comercial, acompanhamento de indicadores e uma estratégia clara de relacionamento, a inteligência artificial apenas acelera problemas que já existiam”.
O que o empresário precisa fazer antes de novembro
Segundo Hugo Silveira, agosto marca o momento ideal para estruturar a operação comercial que sustentará a Black Friday. Mais do que definir descontos, este é o período para preparar processos, pessoas e tecnologia, evitando decisões de última hora que costumam elevar custos e reduzir a rentabilidade.
Entre as principais recomendações estão:
- Organizar e segmentar a base de clientes. Atualizar o CRM, identificar o histórico de compras e separar consumidores por perfil permite criar campanhas mais eficientes e aumentar a taxa de conversão.
- Construir audiência própria. Fortalecer grupos VIP no WhatsApp, incentivar cadastros e ampliar os canais de relacionamento reduz a dependência da mídia paga durante a Black Friday.
- Implantar automações e inteligência artificial. Agentes de IA podem assumir atendimentos iniciais, recuperar carrinhos abandonados, responder dúvidas frequentes e qualificar oportunidades, liberando a equipe comercial para negociações mais complexas.
- Revisar estoque, fornecedores e logística. Antes de ampliar investimentos em publicidade, é importante garantir capacidade operacional para atender ao aumento da demanda sem comprometer prazos ou disponibilidade de produtos.
- Treinar vendedores e equipes de atendimento. A Black Friday exige rapidez, domínio das campanhas, conhecimento dos produtos e capacidade de identificar oportunidades de venda adicional durante o atendimento.
- Definir indicadores de desempenho. Acompanhar métricas como custo de aquisição de clientes (CAC), retorno sobre investimento (ROI), ticket médio, taxa de conversão, recompra e faturamento por canal permite corrigir a estratégia antes do período de maior volume de vendas.
Na avaliação do estrategista, muitas empresas ainda cometem o erro de investir primeiro em mídia e apenas depois tentar organizar a operação comercial. A sequência deveria ser inversa: estruturar processos, preparar a equipe, organizar a base de clientes, implantar automações e somente então ampliar os investimentos em aquisição de tráfego.
A antecipação também acompanha uma mudança no comportamento do consumidor. A pesquisa CX Trends 2026, realizada pela Octadesk em parceria com o Opinion Box, mostra que atendimento personalizado, agilidade e qualidade da experiência continuam entre os principais fatores que influenciam a decisão de compra, reforçando a importância de construir relacionamento antes das grandes campanhas promocionais.
Para Hugo Silveira, a principal transformação da Black Friday acontece muito antes das ofertas chegarem ao consumidor. “As empresas que apresentam os melhores resultados não tratam novembro como um evento isolado. Elas constroem audiência, fortalecem relacionamento, utilizam dados para tomar decisões e desenvolvem uma operação comercial consistente durante todo o segundo semestre. A Black Friday deixou de ser o ponto de partida e passou a ser consequência de uma estratégia bem executada”.
Empresas que deixam para estruturar campanhas apenas em outubro, costumam enfrentar aumento do custo da mídia, maior concorrência pelos mesmos consumidores e menor tempo para formar uma base própria de relacionamento. Como consequência, dependem mais de descontos agressivos para converter vendas, reduzindo margens justamente no período de maior faturamento do ano.



