InícioNotíciasDeepfake corporativo: o golpe agora imita seu chefe

Deepfake corporativo: o golpe agora imita seu chefe

Uma reunião rápida, com pauta urgente e decisão tomada em poucos minutos. Foi nesse contexto que uma multinacional europeia autorizou a transferência de €25 milhões após uma videochamada com alguém que parecia ser seu próprio CEO. O executivo, na prática, nunca participou da conversa. O caso foi revelado em março de 2026 pelo site OnOff Business, que detalhou o uso de deepfake para simular a liderança da empresa em tempo real. Ao mesmo tempo, dados recentes da Europol indicam que uma parcela relevante das fraudes no continente já envolve manipulação de identidade com inteligência artificial.

“Esse tipo de abordagem funciona porque se encaixa na rotina. É uma demanda plausível, com alguém conhecido e um nível de urgência que faz sentido dentro da operação”, afirma José Miguel, Gerente de Pré Vendas da Unentel. “Quando o contexto convence, dificilmente a primeira reação é duvidar.”

O uso de voz sintética e imagem gerada por IA tem sido direcionado a momentos específicos do dia a dia corporativo, principalmente aqueles em que decisões precisam acontecer rápido. Aprovações financeiras, mudanças de fornecedor ou solicitações fora do padrão viram portas de entrada quando não existe um caminho claro para validação. Em muitos casos, basta um único ponto de confirmação para que a solicitação avance.

Relatórios como o Verizon Data Breach Investigations Report 2025 ajudam a entender esse cenário ao mostrar que a maior parte dos incidentes ainda envolve interação humana. Quando uma solicitação combina familiaridade com urgência, a tendência é acelerar a resposta, mesmo sem uma checagem mais cuidadosa. É nesse espaço que o deepfake ganha eficiência.

Algumas empresas já começaram a ajustar esses pontos sem necessariamente recorrer a soluções complexas. Mudanças simples na forma como decisões críticas são validadas, como evitar aprovações por um único canal, registrar exceções e distribuir responsabilidades, têm reduzido o espaço para esse tipo de abordagem. Também cresce o cuidado com pedidos fora do fluxo habitual, principalmente quando envolvem valores, acessos ou prazos curtos.

“O deepfake acompanha a evolução da tecnologia, mas ele ainda depende de como a empresa opera no dia a dia. Quando existe clareza nos processos e mais de uma etapa de verificação, fica muito mais difícil para esse tipo de fraude avançar, por mais convincente que pareça”, finaliza José Miguel.

Na prática, isso tem levado empresas a rever pontos específicos da operação, principalmente onde há mais pressão por rapidez. Segundo o especialista, aprovações financeiras, por exemplo, deixam de acontecer apenas por chamada ou mensagem e passam a exigir uma segunda confirmação em outro canal já conhecido da equipe. Também ganha força a formalização de exceções, quando um pedido foge do padrão, ele não é resolvido no improviso, mas registrado e validado dentro de um fluxo definido. 

Em paralelo, ferramentas que conectam comunicação, identidade e histórico de interações ajudam a dar contexto para cada solicitação, evitando que decisões sejam tomadas com base apenas na aparência ou na urgência. Esse tipo de ajuste não elimina o risco, mas reduz significativamente o espaço para que abordagens como o deepfake avancem dentro da rotina.

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