A inteligência artificial já chegou às salas de reunião das grandes empresas. O problema é que, em muitos casos, ela ainda não chegou da mesma forma à operação. Segundo avaliação da Workhub, HR Tech especializada em intranets e portais corporativos por assinatura, existe hoje uma diferença crescente entre a IA discutida pelos C-levels e a IA percebida pelas equipes no dia a dia.
Enquanto lideranças falam sobre produtividade exponencial, agentes autônomos, transformação cultural e reinvenção organizacional, muitas equipes ainda convivem com problemas básicos de comunicação, excesso de informação, retrabalho e falta de clareza operacional.
“Hoje existe uma IA sofisticada no discurso da alta liderança e outra completamente diferente na experiência da operação. O C-level fala sobre transformação estratégica, mas muitas vezes isso chega às equipes apenas como mais uma plataforma para aprender, mais comunicados genéricos e mais processos confusos”, afirma Andréa Migliori, CEO da Workhub.
Segundo o relatório State of AI 2025, da McKinsey, quase 90% das empresas já utilizam inteligência artificial em alguma função do negócio. Apesar disso, a adoção acelerada não significa necessariamente maturidade organizacional. Para Andrea, um dos principais erros das empresas é acreditar que tecnologia corrige desorganização interna. “A IA não resolve a ausência de direção. Ela amplifica o ambiente em que é inserida. Se a empresa é organizada, acelera produtividade. Se é caótica, acelera o caos. Muitas organizações estão apenas automatizando o improviso”, afirma.
A empresa avalia que boa parte da dificuldade está na forma como a transformação é comunicada e operacionalizada internamente. Segundo a Workhub, o problema não nasce na estratégia, mas na tradução da estratégia para a operação. “A transformação não morre no planejamento executivo. Ela morre quando desce para a operação sem contexto, sem clareza e sem conexão com a realidade das equipes”, explica Andrea.
Acelerando o caos?
O cenário acontece em um momento em que crescem os investimentos em IA ao mesmo tempo em que empresas enfrentam dificuldades para preparar lideranças e pessoas colaboradoras para trabalhar em um ambiente cada vez mais automatizado. Segundo o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, 63% das empresas consideram o gap de habilidades a principal barreira para transformação dos negócios até 2030.
Na avaliação da CEO da Workhub, a transformação provocada pela IA é menos tecnológica do que humana. “O principal desafio não é ensinar pessoas a usar uma ferramenta. É ensinar lideranças a criar contexto, comunicar mudança e preparar equipes para trabalhar de forma diferente”, afirma.
A HR Tech aponta que existe hoje um desalinhamento estrutural dentro das organizações. Enquanto a alta liderança discute inovação em um nível estratégico, a operação muitas vezes recebe apenas treinamentos superficiais e mensagens vagas sobre “abraçar a transformação digital”. “É uma espécie de telefone sem fio corporativo. A liderança fala sobre reinvenção organizacional; a equipe entende apenas que terá de aprender mais uma plataforma até sexta-feira”, diz Andrea.
Para reduzir essa distância, a Workhub defende que empresas precisam transformar IA em pauta de cultura organizacional e não apenas de tecnologia. Isso inclui revisão de processos, comunicação interna mais contextualizada, desenvolvimento contínuo de lideranças e clareza sobre o que muda — e o que continua humano — dentro das organizações.
“A empresa que conseguir extrair valor real da IA não será necessariamente a que tiver a ferramenta mais avançada, mas a que conseguir alinhar liderança, comunicação e operação na mesma direção. Time não acompanha software. Time acompanha clareza, confiança e contexto”, conclui.



