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Adeus às maquininhas: o que modelos de pagamentos chineses ensinam sobre segurança e sustentabilidade

Assim como a cultura brasileira é mundialmente caracterizada pela criatividade, nosso mercado financeiro também é reconhecido por sua robustez. E o sucesso do Pix provou que estamos cada vez mais prontos para a digitalização dos serviços, já que 45% das compras online são feitas usando esse meio de pagamento cinco anos depois que ele foi criado. No entanto, ao caminhar pelas ruas de São Paulo e Pequim, percebi um contraste tecnológico gigante. Enquanto o Brasil ainda vive o auge da ‘guerra das maquininhas’, a China já decretou a morte desse dispositivo. Ainda insistimos em um modelo que exige quase um minicomputador em cada padaria ou banca de jornal. É um ecossistema complexo, caro e que caminha na contramão da eficiência global.
 

Recentemente, em uma imersão profunda no ecossistema tecnológico chinês, pude ver como a lógica dos pagamentos foi reconstruída. Lá, a onipresente máquina de cartão tornou-se obsoleta graças a empresas como Alipay e WeChat Pay. No Brasil, o dispositivo ainda funciona como uma espécie de caixa-forte móvel, cheio de certificações, travas físicas e demanda por manutenção, mas, na China, essa inteligência já foi transferida do balcão do lojista para a palma da mão do consumidor. O que o comerciante utiliza é apenas um receptor simples ou um QR Code, enquanto toda a complexidade de segurança, validação de valores e autenticação biométrica ocorre no smartphone de quem paga.

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Essa mudança estrutural acelera o que entendo como ‘inversão da complexidade’ dentro do ecossistema financeiro e revela o nosso gargalo atual. Por aqui, as credenciadoras e lojistas arcam com o custo logístico imenso de distribuir, atualizar e substituir terminais físicos blindados, expostos a roubos e quebras. É um investimento pesado e que exige manutenção física constante. Na China, investe-se massivamente em sistemas e tecnologias.

Ao descentralizar a transação da maquininha para o celular do usuário, a responsabilidade pela integridade do sistema e pela atualização tecnológica é transferida para o próprio dispositivo do pagador. Isso desonera a operação e permite que o investimento seja direcionado para a segurança da informação e a precisão dos dados, além de estimular o hábito de checar sempre as informações de cada compra.

Essa mudança de paradigma ataca a maior dor do varejo nacional: a fraude. O Brasil detém índices alarmantes de chargeback, que ultrapassam os 3%, enquanto na China esse número é menos de 0,2%. O modelo chinês entendeu rápido como solucionar isso. Ao ter a transação finalizada e revisada pelo consumidor no próprio celular, não há o risco de clonagem de cartões ou de o lojista capturar a senha, pois o usuário é quem detém o controle da jornada de compra.

Quando o comprador valida o pagamento em seu próprio aparelho, seja por meio de senha ou biometria, o risco de fraude cai drasticamente, o que protege a margem do lojista, que hoje, no Brasil, é pressionada por altos custos de prevenção e perdas operacionais.

A precisão analítica permitida por este modelo de dados sobre hardware possibilita uma oferta de crédito muito mais barata. No sistema tradicional de adquirência, o papel da maquininha também se limita a transacionar um crédito pré-aprovado, validando apenas se o portador possui limite ou se a senha está correta. É um modelo vulnerável, especialmente no mundo digital, em que os pontos de checagem são restritos. Mesmo no varejo físico, o desafio cresceu com os cartões por aproximação e o uso de PINs que tentam transferir a responsabilidade da segurança para o consumidor.

Enquanto o cartão de crédito muitas vezes empurra o cliente para o superendividamento, criando uma bola de neve de juros que prejudica a economia familiar, a inadimplência no rotativo do cartão atingiu patamares alarmantes no final de 2025, chegando a 64%, marcando o maior patamar histórico da série iniciada em 2011, segundo dados do Banco Central. Paralelamente, o modelo focado na emissão de crédito por transação individualizada permite juros proporcionalmente menores. É o que implementamos com o Parcelamento via Pix: um crédito de precisão que analisa o comportamento em tempo real e transação a transação, tal como fazem as gigantes chinesas.

Ao unir tecnologias de reconhecimento facial e de biometria nativas dos smartphones modernos com a inteligência artificial das plataformas de pagamento, cria-se um ambiente em que a fraude perde espaço. Esses sistemas de IA distinguem imagens reais de simulações, diminuindo as chances de falsidade ideológica no ato do pagamento. O resultado prático dessa segurança robusta é uma eficiência sem precedentes tanto na finalização da compra quanto na concessão e precificação do crédito, garantindo que a tecnologia sirva para a aprovação de bons clientes, e não apenas para o bloqueio de riscos.

Mais do que conveniência, a transição para um modelo sem terminais físicos é uma questão de responsabilidade social. O Parcelamento via Pix, por exemplo, ao exigir o compromisso da primeira parcela no ato, também educa o consumidor. Evita-se o impulso emocional do cartão, que não demonstra nenhum impacto na renda mensal no momento da compra, mas pode gerar uma bola de neve na fatura. Isso cria um ambiente de consumo consciente em que o risco pode ser gerido de ponta a ponta e com a ciência do usuário.

Para o Brasil liderar a próxima fase da economia digital, precisamos dar adeus às maquininhas. Menos investimento em plástico e circuitos físicos, mais aporte em segurança de dados e biometria. Esse é o futuro do varejo que eu vejo, com reforço da inteligência invisível que garante que cada transação seja segura e humana, e não na robustez da máquina que fica em cima do balcão.

O papel das novas tecnologias financeiras no Brasil também é fornecer um ecossistema seguro, transparente, de custo acessível e desprovido de fricções para que o consumo cresça de forma saudável e sustentável, e não apenas incentivar o consumo irracional ou a qualquer custo. Agora, cabe aos órgãos reguladores, às instituições financeiras e às fintechs acelerar essa transição, garantindo que a tecnologia sirva como um motor de inclusão econômica.

Eduardo Zucareli é Chief Commercial Officer da Pagaleve 

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