Prestes a completar dez anos em 11 de abril, o Unified Payments Interface (UPI) da Índia caminha para ultrapassar a marca de 1 trilhão de transações acumuladas no início de2027. A expectativa é de que o marco seja atingido até o final do atual ano fiscal indiano, iniciado em 1º de abril deste ano, com 297,2 bilhões de operações adicionais processadas na rede. Em valor, o acumulado deve saltar de 1,07 quatrilhão derúpias (aproximadamente R$ 60 trilhões) para cerca de 1,44 quatrilhão de rúpias (R$ 80 trilhões) no mesmo período.
O Pix, inspirado no sistema de pagamentos instantâneos criado pela Índia, registrou 240 bilhões de transações desde o lançamento no fim de 2020, um terço do acumulado do UPI até março de 2026.
Os números fazem parte de uma nova análise do EBANX com base em dados públicos da National Payments Corporation of India (NPCI) , do Reserve Bank of India (RBI, o banco central do país) e do Banco Central do Brasil.
“O UPI é o sistema de pagamento instantâneo mais utilizado do mundo e conseguiu algo que cartões e carteiras digitais nunca alcançaram na Índia”, afirma Rashmi Satpute, Diretora Regional do EBANX no país. “A Índiaera uma economia baseada em dinheiro vivo, com poucas alternativas viáveis. O UPI mudou isso ao permitir que qualquer pessoa com conta bancária fizesse pagamentos em tempo real, a qualquer hora, pelo aplicativo que preferir no celular. Essa combinaçãonão existia antes.”
No quinto aniversário, em 2021, o valor processado pelo UPI já superava em uma vez e meia o valor total em notas e moedas em circulação. Agora, no décimo, a diferença é de oito vezes: 314,2 trilhões de rúpias (R$ 17,5 trilhões) movimentadas nosúltimos 12 meses contra 39,9 trilhões de rúpias (R$ 2 trilhões) em dinheiro físico, segundo análise do EBANX.
O mesmo aconteceu no Brasil, mas em um patamar acima, alavancado pelo poder de compra do brasileiro — o tíquete médio de cada Pix em 2025 (R$ 443,45) foi seis vezes o do UPI (cerca de R$ 72,20). Os mais de R$ 35 trilhões movimentados pelo sistemabrasileiro nesse período representam quase 100 vezes o valor total em cédulas e moedas em circulação (R$ 365,7 bilhões). Essa diferença também se reflete no que os sistemas representam em suas respectivas economias: o valor processado em rúpias pelo UPI no último ano fiscal equivale a 88% do PIB indiano; no Brasil, o Pix já movimenta valores equivalentes a quasetrês vezes o PIB nacional.
Economias cada vez mais digitalizadas
O mercado de e-commerce da Índia deve alcançar US$ 275 bilhões até 2028 — praticamente dobrando de tamanho em cinco anos. O UPI já responde por 57% do valor total de compras online no país, seguido por cartões de crédito com25%, segundo dados da Payments and Commerce Market Intelligence (PCMI) presentes no estudo Beyond Borders 2026 do EBANX.
“O que começou como um esforço para reduzir a dependência do dinheiro em espécie redefiniu o que significa dinheiro na Índia e se tornou a espinha dorsal da economia digital do país”, diz Satpute.
No Brasil, o Pix também está alavancando o crescimento do comércio eletrônico. No ano passado, ele ultrapassou os cartões de crédito e se tornou o método mais usado para compras online, com 42% do valor total, segundo dados da PCMI analisados peloEBANX. A expectativa é que essa participação chegue a 50% até 2028, quando o e-commerce atingirá um valor de mercado de US$ 516 bilhões, quase o dobro do indiano.
O roteiro indiano adaptado a outros países
Primeiro sistema de pagamento instantâneo a ganhar escala, o UPI acumulou uma década de aprendizados que outros países, incluindo o Brasil, vêm aproveitando para implementar e acelerar suas próprias redes. O Pix Automático, por exemplo, foilançado cinco anos depois do UPI AutoPay, funcionalidade de recorrência introduzida pela Índia em 2020. Um dos próximos passos da instituição brasileira é a internacionalização do Pix, prevista para o ano que vem. O UPI já opera nos Emirados Árabes Unidos, Singapura, França e outros cinco países.
“A Índia é constantemente procurada por outros países que querem entender como o UPI foi construído e como escalou”, afirma Satpute. “O Brasil foi um dos primeiros a fazer isso, e hoje, cinco anos depois, tem o Pix— o segundo sistema de pagamento instantâneo mais utilizado do mundo, atrás apenas do UPI.”
Embora a experiência indiana tenha influenciado o desenvolvimento de sistemas em outros países, o Brasil trilhou um caminho próprio, com funcionalidades e regulamentações distintas: adesão obrigatória das instituições bancárias, padronizaçãode pagamentos via QR Code desde o primeiro dia, gratuidade para pessoas físicas, entre outras. O sucesso chamou a atenção de vizinhos.
A Colômbia foi um dos primeiros a criar um sistema inspirado no Pix. Lançado no ano passado, o Bre-B segue as mesmas características da rede brasileira: interoperabilidade, disponibilidade 24/7 e liquidação imediata. O EBANX foi uma das duas fintechs convidadas para ajudar no desenvolvimento da ferramenta colombiana de pagamento instantâneo.